22/09/2008 - "Tubarões - Caçadores ou caças???"
Outras Notícias

         Artigo escrito por Cláudia Palaci, Jornalista voluntária da ONG Instituto Sea Shepherd Brasil – Guardiões do Mar.
         Pensar em tubarões com carinho é uma tarefa difícil: eles povoam o imaginário com cenas sangrentas e ataques perversos. Vez por outra, aparecem em capas de jornais como protagonistas de tragédias em beiras de praia. Em Recife, neste ano, foram dois ataques. O segundo caso aconteceu dia 11 de junho, quando um garoto de 14 anos levou uma mordida à 20 metros da areia. Sobreviveu. Foi o 53º ataque desde 1992 no litoral pernambucano, com 19 mortos em todo o período. A boca do tubarão costuma funcionar como uma espécie de tato. Quase na totalidade dos acidentes, o tubarão erra na identificação da presa. Por esse motivo é que eles dão uma mordida no homem e ao perceber o engano se afastam. Mas por quê existem os ataques?
         Notícias deste tipo são anúncios velados de um problema que vai além da dor da perda de um ente querido. A explicação viria da inauguração do Porto de Suape em 1989, 50 km ao sul do Recife. A fêmea da espécie de tubarão cabeça-chata, que sempre viveu na região, entrava na água doce do mangue para parir seus filhotes, mais especificamente nos rios Merepe e o Ipojuca. Os contatos dos dois rios com o mar foram desfeitos, além da destruição de uma grande área de mangue. Assim as fêmeas da espécie cabeça-chata tiveram de procurar outros lugares para procriar.
         A região mais próxima para isso era o Rio Jaboatão, ao norte. Aumentando o contato dos tubarões com uma região mais populosa, o número de acidentes cresceu nas praias de Piedade, Boa Viagem e Pina, na Grande Recife. Os tubarões também tiveram de aumentar seu local de caça, que passa muito próximo da praia de Boa Viagem e arredores, aumentando assim a interação do homem com o tubarão. “O problema do desequilíbrio ambiental foi criado pelo próprio homem, agora temos de aprender a conviver, explica o biólogo Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Aqualung.
         Já para o biólogo e professor da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos (SP), Otto Bismarck, o Nordeste já era uma região de habitat dos tubarões antes da construção do porto. “Diferentemente de outros portos no País, o de Suape destruiu rebanhos de corais, queimou mangue e fechou bocas de rios que chegavam até o mar, ou seja, a destruição da cadeia alimentar foi muito grande propiciando o crescente número de ataques em busca do escasso alimento”, analisa ele. O professor também aponta que o sangue ou até mesmo a urina pode atraí-los pelo odor. “O tubarão possui uma bateria sensorial muito apurada localizada na cabeça. O simples balanço das pernas de um surfista sentado na prancha pode ser detectado por suas linhas laterais que captam vibrações como radares”, conclui. No Brasil, especificamente, são extensos os registros de aparições dos Carcharhinus leucas, popularmente conhecido como cabeça-chata, e de tubarão tigre. Eles normalmente atacam de baixo para cima com uma mordida muito forte tentando imobilizar a presa de início.
Rumo à extinção
         Apesar da convivência nem sempre agradável, por causa de ações predatórias humanas, os tubarões fazem parte de uma espécie de peixe de extrema valia para o ecossistema marinho e merecem ser preservados como qualquer outro ser. No Brasil estão cerca de 88 espécies, das 400 encontradas pelo mundo. Uma benção da Mãe Natureza transformada em comércio devastatório. Populações inteiras estão sendo dizimadas pelos vários tipos de pesca. Algumas, como é o caso do cação-listrado, já declinaram em até 95%. O incremento na cobiça pelos tubarões no país em todas as partes do mundo ocorre por causa do aumento no preço da sua barbatana, puxado principalmente pela demanda asiática. Hoje, ela pode chegar a custar até R$ 100 o quilo no Brasil. É usada em uma sopa muito apreciada pelos chineses.
         Números oficiais das exportações brasileiras atestam que as barbatanas de tubarão secas, geraram ao Brasil, em 2007, US$ 2.312.544. Isso equivale a 131 toneladas. Cerca de 35 mil indivíduos da espécie Tubarão-Azul, já foram capturados pela modalidade de pesca conhecida como espinhel, nas águas do Sul do Brasil entre 1997 e 2005. Essa espécie é uma das favoritas dos pescadores, por ser fácil de apanhar e ter barbatanas enormes. No Atlântico Sul o volume dispara para 2 milhões de exemplares por ano.
         No mundo, 100 milhões de tubarões são caçados por ano – pela pesca predatória, por esporte ou pela prática bárbara conhecida como finning. Tubarões fisgados são trazidos aos barcos para terem suas barbatanas cortadas enquanto eles ainda estão vivos. Sem qualquer condição de se protegerem, eles são atirados novamente ao mar, onde impossibilitados de nadarem sem suas nadadeiras, afundam e morrem em uma agonizante morte. Com mais de 90% da população de grandes tubarões dizimada, os tubarões estão sendo exterminados mais rápido do que podem se reproduzir. Este fato ameaça a estabilidade dos ecossistemas marinhos em todo mundo.
Não compre!
         O motivo para a pesca que provoca o extermínio destes peixes beira o banal: sopas de barbatana; dentes para a produção de bijouterias; mandíbulas para a confecção de souvenirs; pele para carteiras de bolso e cintos; cartilagem para produção de cápsulas para “curas milagrosas” e óleo de fígado para preparo de cosméticos.
         A Sea Shepherd luta para salvar os tubarões confiscando dezenas de milhares de barbatanas de tubarão obtidas ilegamente e levando à prisão os envolvidos; removendo milhares de quilômetros de redes de pesca ilegais e liberando animais presos nelas; em parceria com a Polícia do Ambiental do Equador, criando uma unidade especial de cães farejadores capazes de identificar barbatanas; desenvolvendo redes de inteligência para auxiliar na apreensão de barbatanas em áreas protegidas; campanhas educativas e presença permanente na Reserva Marinha de Galápagos para defendê-la de caçadores de tubarões.
         O recado da Sea Shepherd é que “não compre ou consuma produtos feitos a partir de tubarão”. Uma oposição ofensiva quanto à comercialização é uma mola propulsora à educação e divulgação da pesca predatória. É um modo eficiente de protesto. O documentário Sharkwater é uma excelente dica para saber melhor sobre o universo dos tubarões.